terça-feira, 2 de abril de 2019

Vamos à luta!

É importante sonhar. Ter uma força motriz que objetive um futuro melhor e que
se compreenda no âmago de nosso ser, para sempre ali permanecer. E certos
sonhos apenas precisam ser revividos. Uma ideia clássica já amplamente defendida por grandes figuras através dos tempos adaptada aos dias modernos.
            E nós, nacionais desenvolvimentistas, revivemos o sonho de um verdadeiro Brasil Nação; forte, desenvolvido, justo, moderno, solidário e democrático: a potência do Sul. Sonhado por ícones como Leonel Brizola, Getúlio Vargas, João Goulart e Darcy Ribeiro.
O Brasil deste sonho não se parece muito com o Brasil que vivemos. A insatisfação do povo se faz notar. As injustiças e disparidades socioeconômicas estão escancaradas. O modelo tributário é desfavorável aos que possuem menos e mais dócil aos que tem maiores posses. O sistema financeiro nacional é predatório e cartelizado em cinco grandes bancos, que convencionam entre si taxas e valores padrões para lucrar em cima do drama de nosso povo e assim assegurar seu oligopólio.
            Ainda, para melhor compreender o problema brasileiro, é preciso lembrar dos 14 milhões de nossos irmãos e irmãs desempregados e dos mais de 60 milhões de pessoas com o nome sujo no Serviço de Proteção ao Crédito. Estes dados se tornam ainda mais ultrajantes quando percebemos que o modelo estrutural do país foi montado justamente para privilegiar as elites dominantes e para promover uma criminosa concentração de renda, onde cinco hiper-ricos têm renda equivalente a 100 milhões de nacionais brasileiros.
            Como se isto não bastasse, agora nos deparamos com um agravante. Não é só com a mesquinhez das elites dominantes “nacionais” que devemos nos preocupar. O governo de Jair Bolsonaro, sob o manto de um novo conceito nas relações exteriores, escancara o país aos interesses estrangeiros em detrimento dos interesses do povo que o elegeu. Diante deste quadro, não nos cabe outra alternativa a não ser denunciar as agressões à soberania nacional da República Federativa do Brasil através de medidas do atual governo, bem como o rompimento de tradições centenárias de nossa pátria em virtude do afago a uma nação estrangeira.



            Pois bem, comecemos por um dos assuntos mais delicados. Há muito não havia tanta tensão na América do Sul. A situação na vizinha Venezuela é extremamente complexa e, aparentemente, envolve em grande dimensão interesses internacionais difusos e antagônicos, tornando o drama de nossos irmãos venezuelanos moeda de troca no tabuleiro global. Com isto, não se quer defender o governo daquele país, pois as condições de um povo são de responsabilidade de seus governantes. Contudo, não se pode ser ingênuo ao tratar de um tema tão sensível com simplificações grosseiras e abordagens tendenciosas, tendo em vista o potencial de riqueza natural e mineral de nossos vizinhos.
            O Brasil, como maior nação do continente e por respeito à sua tradição, deve tomar para si o protagonismo da mediação deste impasse e não buscar atuar como parte interessada. Neste momento, o governo Bolsonaro age escancaradamente como opositor ao governo constitucional venezuelano e provoca ainda mais instabilidade na região, demonstrando um vergonhoso alinhamento automático e deplorável subserviência à agenda de Washington. É inadmissível a hipótese, por menor que seja, de uma guerra na fronteira e os esforços pela manutenção da paz devem ser multiplicados. Caso a postura ativa do governo brasileiro sobreponha-se à altiva, existe um profundo risco de perda de credibilidade e confiança na relação com nossos irmãos sul americanos.   
Ademais, o Brasil não possui estritamente nenhum interesse numa eventual guerra fronteiriça, pelo contrário, só temos a perder com o envolvimento em um cenário como este. Aliás, vale lembrar que nossa relação comercial com a Venezuela é superavitária. 
            Diante disto, clama-se que o Brasil amenize as tratativas e promova o diálogo entre situação e oposição daquele país, sem tomar lados, bem como fiscalize e denuncie qualquer tentativa de ingerência estrangeira nos assuntos domésticos da Venezuela, respeitando, assim, o direito de autodeterminação de seu povo.
            Em tempo, gostaríamos de demandar para o conjunto da sociedade brasileira, de maneira clara e abrangente, todas as informações e pormenores que permeiam o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas entre o Brasil e os Estados Unidos da América, envolvendo a Base de Alcântara no Maranhão, oficialmente anunciado pelo presidente brasileiro em encontro com o presidente estadunidense, afim de garantir que, conforme pronunciamento do Ministro Marcos Pontes, o texto do acordo não fira a soberania nacional.
Doravante, entende-se ser inescapável tratar sobre dois fatos que atentam diretamente contra a tão zelada soberania nacional, são eles: 1) o anúncio feito pelo Almirante estadunidense Craig Faller na Comissão de Forças Armadas do Senado daquele país, de que até o final deste ano um general brasileiro será o vice-comandante de interoperabilidade do Comando Sul das Forças Armadas estadunidenses; e 2) o lamentável negócio firmado entre a Embraer e a Boeing, que, na prática, declara a extinção do potencial tecnológico defensivo da empresa nacional.
            O primeiro fato é um verdadeiro absurdo! Caso tal informação venha a se confirmar, será inédita e inaceitável a oficial subordinação de nosso país a uma potência estrangeira, principalmente em um momento de tamanha tensão mundo afora - especialmente em nossa região. Um governo que valorize a soberania de sua nação jamais aceitaria o sórdido papel de nomear um militar de alta patente para liderar e ser liderado por forças de um outro país. Ainda mais quando uma decisão como esta desrespeita os mecanismos republicanos e, nem ao menos informa, tampouco consulta, a opinião de seu parlamento. Inclusive, a notícia foi veiculada no Brasil apenas após tornar-se pública nos Estados Unidos. Isto é motivo de vergonha para todo brasileiro e brasileira que preze a autonomia e soberania de seu país. Lamentamos profundamente este episódio e apelamos ao governo brasileiro para que abandone esta sandice, volte atrás e não permita a subordinação de nosso país aos Estados Unidos ou a qualquer outra nação estrangeira.
            O segundo fato é um dos maiores constrangimentos já consumados pelo governo Bolsonaro até aqui. Graças a um governo que tem o patriotismo como fundamento essencial de sua retórica, mas fundamento descartável no seu modus operandi, entregamos a Embraer - que é líder mundial na construção de aeronaves de médio porte - para a sua concorrente, a norte americana Boeing. A Embraer nos garante ser um dos 08 (oito) países do planeta que detém a tecnologia da produção de aviões e é uma das joias industriais brasileiras com uma gama de aviões civis, militares, jatos executivos, 16 mil funcionários e um volume de negócios de 06 (seis) bilhões de dólares. A fusão com a Boeing prevê que a estadunidense assuma o controle das atividades civis da brasileira por um valor de 4.2 bilhões de dólares, o que lhe renderá controle de 80% do capital do novo grupo, enquanto a empresa nacional fica apenas com 20% do negócio. Assim, podemos constatar que a operação beneficia tão somente a gigante norte americana. Trata-se de uma afronta à soberania nacional tendo em vista que a operação apenas prejudica a empresa brasileira, a qual compreende-se dentro de um setor absolutamente estratégico para o país, o setor de produção de aeronaves, que também envolve defesa e desenvolvimento tecnológico, ou seja, setor vital para uma nação do século XXI. Com o negócio já consumado, nos resta apenas lamentar e denunciar o entreguismo.
            Movimentos estranhos acontecem no Brasil. Observamos incrédulos às medidas do novo governo, que dotados de amadorismo, de uma aparência insegura, de confusão e pouca clareza, na prática, nos parecem atacar o conceito de Brasil nação. Com isso, queremos dizer que muitas das ações do novo governo têm vindo para prejudicar os próprios brasileiros. Para além de tudo que já foi enumerado neste documento, podemos lembrar também da perda de preferência comercial agrícola com os chineses por puro e simples besteirol ideológico, os quais agora compram a soja estadunidense, acabando por prejudicar os produtores rurais brasileiros; ou lembrar também das confusões com o mundo árabe – maior comprador de carnes de nossos pecuaristas -, mais uma vez por besteirol ideológico, graças ao alinhamento automático com a política de Washington, aventando a mudança da embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém; ou também do fim da taxa antidumping sobre a importação de leite para o Brasil, que mesmo com o aumento no imposto de importação subsequente, deixa os pequenos produtores brasileiros desprotegidos.
            A ida do presidente brasileiro aos Estados Unidos para encontro com Donald Trump foi um fracasso para o nosso país e expôs ainda mais a submissão de nosso governo ao “Tio Sam”. Bolsonaro se vangloria em afirmar que nosso país nunca teve uma relação tão boa com os E.U.A..  Todavia, nos cabe verificar se tal proximidade é profícua para ambos. O Brasil possui o interesse de ingressar para a OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – , contudo, para obter apoio dos estadunidenses para tal ingresso, estes exigem que abandonemos a condição de “país em desenvolvimento” na OMC – Organização Mundial do Comércio. Mas o questionável é que outros países como China e Índia, por exemplo, estão nas duas organizações e não tiveram que abrir mão do Tratamento Especial para Países em Desenvolvimento na OMC.
            Outro fato ocorrido nesta viagem, foi o anúncio de que turistas dos Estados Unidos, Japão, Austrália e Canadá não necessitarão mais de visto para ingressar em território nacional. Bom seria se a medida fosse bilateral e os brasileiros também ficassem dispensados da necessidade de obter visto para estes países, no entanto, não é o que se passou. A medida foi unilateral e não auxilia em nada os brasileiros. Foi apenas mais um aceno de “boa vontade” de Bolsonaro. Diante das duas medidas em tela, indaga-se: afinal, a relação com os Estados Unidos é de proximidade ou de vergonhosa submissão?
            E, por fim, o curioso é que estes ataques à ideia de Brasil nação  acontecem justamente em um governo forrado de militares da reserva, os quais – em tese – deveriam ser nacionalistas e jamais aceitariam ser subservientes a uma potência estrangeira. O que gerou esta conveniência de valores, pessoas e  ideologias distintas ainda é obscuro. 
            Todavia, já fica claro o despreparo inerente ao governo e que quem perde com isso é o próprio Brasil e seu povo. 
Brasileiras e brasileiros: o tempo não é só para revivermos sonhos, o tempo é de agirmos. Que ajamos juntos pelo Brasil, do contrário, não sobrará nada para chamarmos de nacional. Abaixo o vira-latismo e a subserviência.  Viva o Brasil soberano!

Vamos à luta!

Por João Eduardo Ramos Moreira

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